O que é afasia? Entenda por que a fala pode mudar após um AVC
Muitas famílias ouvem a palavra afasia pela primeira vez no hospital, poucos dias depois de um AVC. Entenda o que é, por que acontece e como ajudar no dia a dia.


Muitas famílias ouvem a palavra afasia pela primeira vez no hospital, poucos dias depois de um AVC. O médico explica que houve uma alteração na linguagem. No entanto, naquele momento, o termo costuma trazer mais dúvidas do que respostas.
É comum que a família perceba as mudanças antes mesmo de entender o diagnóstico. A pessoa quer pedir água e diz outra palavra. Entende parte da conversa, mas se perde em frases longas. Tenta escrever o nome de um filho e não consegue.
Este texto reúne as informações básicas para quem está vivendo essa situação agora. A seguir, explicamos o que é afasia, por que ela acontece, o que pode ser afetado além da fala e como a família pode ajudar na comunicação do dia a dia.
O que é afasia?
Afasia é uma alteração da linguagem causada por uma lesão no cérebro. Ela afeta a forma como a pessoa entende e usa as palavras. Por isso, pode dificultar a fala, a compreensão do que os outros dizem, a leitura e a escrita.
Vale ressaltar que a afasia não afeta a inteligência. A pessoa continua sabendo quem é, reconhece a família e tem as próprias opiniões. O que fica prejudicado é o acesso à linguagem. Ou seja, o pensamento continua lá, mas o caminho até a palavra certa ficou mais difícil.
Essa diferença muda a forma de lidar com a pessoa. É comum que familiares, sem perceber, passem a falar com ela como se fosse uma criança ou a decidir tudo sem consultá-la. No entanto, a pessoa com afasia continua sendo um adulto, com vontades e história, e precisa ser tratada assim.
Por que a afasia acontece depois de um AVC?
O AVC acontece quando uma parte do cérebro deixa de receber sangue. Isso pode ocorrer pela obstrução de um vaso (AVC isquêmico) ou pelo rompimento dele, com sangramento (AVC hemorrágico). Em ambos os casos, as células da região atingida sofrem lesão.
As áreas do cérebro ligadas à linguagem ficam, em geral, no lado esquerdo. Cada uma delas cuida de uma parte do processo: entender o que se ouve, encontrar a palavra, organizar a frase. Quando o AVC atinge essas áreas, a pessoa pode desenvolver afasia.

O AVC é a causa mais comum de afasia, mas não a única. Ela também pode surgir depois de um traumatismo na cabeça, de um tumor ou de uma infecção no cérebro.
Atenção: dificuldade para falar ou para entender o que é dito, quando começa de repente, é um dos sinais de AVC. Nesses casos, a orientação do Ministério da Saúde é buscar atendimento de emergência imediatamente. No Brasil, o SAMU atende pelo número 192.
O que pode mudar além da fala
Quando se fala em afasia, a primeira imagem é a de alguém que não consegue falar. No entanto, a linguagem está presente em muitas outras atividades do dia a dia. Sendo assim, a afasia pode afetar também:
- Compreensão: a pessoa pode acompanhar frases curtas e se perder em conversas longas, rápidas ou com várias pessoas falando ao mesmo tempo.
- Leitura: ler uma mensagem no celular, o rótulo de um remédio ou uma notícia pode ficar difícil.
- Escrita: escrever o próprio nome, um bilhete ou uma lista de compras pode exigir muito esforço.
- Gestos: em alguns casos, a comunicação por gestos também é afetada.
Além da afasia, o AVC pode trazer outras alterações que interferem na comunicação. A disartria altera a articulação e a voz, e a fala pode sair arrastada ou pouco clara. Já a apraxia de fala dificulta o planejamento dos movimentos necessários para produzir os sons. Segundo o Ministério da Saúde, a apraxia de fala raramente aparece sozinha e costuma vir junto com a afasia.
Outras funções também podem mudar depois de um AVC, como a memória, a atenção e o cálculo. Nem sempre isso faz parte da afasia, mas pode aparecer ao mesmo tempo. Por isso, a avaliação feita pela equipe de saúde costuma olhar para várias áreas, e não apenas para a fala.
Por fim, existe o lado emocional. A dificuldade de se comunicar pode levar ao isolamento social, e esse isolamento pode desencadear ou agravar quadros de depressão. Mudanças de humor também são comuns após um AVC. Se a família perceber tristeza persistente, desânimo ou crises de choro frequentes, vale conversar com a equipe que acompanha a pessoa.
Cada pessoa com afasia é diferente
Duas pessoas com afasia podem ter dificuldades bem diferentes. O tipo e a intensidade dependem da área do cérebro atingida e da extensão da lesão.
Os profissionais usam alguns nomes para descrever os quadros mais conhecidos:
- Afasia de Broca (ou expressiva): a pessoa forma as palavras com esforço e costuma omitir palavras pequenas, como “o” e “é”. Às vezes usa uma palavra próxima da que queria, como dizer “carro” no lugar de “caminhão”. Algumas frases também podem ser difíceis de entender.
- Afasia de Wernicke (ou receptiva): a fala sai com fluidez, mas pode ter palavras trocadas ou inventadas e frases sem sentido. A pessoa tem dificuldade para entender o que os outros dizem.
- Afasia global: ocorre quando a lesão atinge uma área extensa. Falar, entender, ler e escrever ficam muito comprometidos.
Essas descrições servem como referência, mas não contam a história toda. O que realmente orienta o cuidado é a avaliação individual, que mostra o que aquela pessoa consegue fazer hoje e onde estão as maiores dificuldades. O Ministério da Saúde recomenda que essa avaliação parta das capacidades da pessoa, e não apenas das limitações.
A recuperação também varia de um caso para outro. Algumas pessoas melhoram bastante nos primeiros meses. Outras mantêm dificuldades por mais tempo. Diante disso, comparar a evolução com a de um parente, de um vizinho ou de um caso visto na internet costuma gerar ansiedade sem ajudar a entender o próprio caso.
Como a família pode ajudar na comunicação
A família está presente na maior parte das conversas do dia a dia. Por isso, o jeito de conversar em casa faz diferença. O Ministério da Saúde inclui a orientação de familiares e cuidadores como parte do tratamento. As atitudes abaixo são recomendadas pela National Aphasia Association e pelas diretrizes brasileiras de reabilitação após AVC:
- Dê tempo. Espere a pessoa terminar. Evite interromper ou completar as frases por ela. Contar até cinco antes de oferecer ajuda já muda muito a conversa.
- Use frases curtas e fale devagar. Não é preciso falar mais alto. Basta um assunto por vez, com pausas entre uma ideia e outra.
- Fale de frente e reduza o barulho. Desligue a TV e procure um lugar calmo. Conversas com várias pessoas falando ao mesmo tempo costumam ser as mais difíceis.
- Faça perguntas de sim ou não, ou de escolha. Em vez de “O que você quer beber?”, pergunte “Você quer café ou água?”. A resposta pode vir com um aceno, um polegar para cima ou apontando.
- Use outros recursos além da fala. Gestos, desenhos, escrita, fotos no celular e aplicativos ajudam a pessoa a entender e a se expressar.
- Confirme o que entendeu. Repita em voz alta: “Você apontou para a janela. Quer sair um pouco?”. Se não entendeu, diga isso com calma e tente de outro jeito.
- Valorize o esforço, não os erros. Evite corrigir cada palavra. O objetivo é a mensagem chegar.
- Inclua a pessoa nas conversas e decisões. Conte as novidades da família e peça a opinião dela. Fale com ela como o adulto que ela é.
- Pergunte o que funciona melhor. Uma pergunta simples, como “Escrever ajuda?”, evita muita tentativa e erro.
Vale ressaltar que essas estratégias não substituem a terapia. Elas tornam o dia a dia menos cansativo para todos e criam mais oportunidades para a pessoa se comunicar. Além disso, quem cuida também precisa de apoio. Pedir orientação à equipe de saúde e dividir as tarefas entre os familiares ajuda a evitar o esgotamento.
Reabilitação e recursos de apoio
A afasia tem tratamento, e o profissional responsável pela reabilitação da linguagem é o fonoaudiólogo. Na avaliação, ele observa como a pessoa responde perguntas, nomeia objetos, conversa, segue instruções, lê e escreve. A partir disso, define um plano de terapia para aquele caso.
De acordo com a American Stroke Association, não existe remédio para a afasia. O tratamento é feito com terapia, que busca três coisas: aproveitar as habilidades que a pessoa ainda tem, recuperar o que for possível e ensinar outras formas de se comunicar.
As maiores melhoras costumam acontecer nos primeiros meses após o AVC. Em muitos casos, parte das dificuldades permanece depois dessa fase. No entanto, a linguagem e a comunicação podem continuar melhorando por muitos anos.
O Ministério da Saúde recomenda que a reabilitação comece cedo e seja feita por uma equipe com diferentes profissionais, como fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e psicólogo. As diretrizes também orientam que, na alta hospitalar, a pessoa receba um relatório e o encaminhamento para a equipe de reabilitação. Se isso não aconteceu, vale perguntar à equipe do hospital ou procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima.
Comunicação alternativa
Enquanto a fala não volta, ou quando volta apenas em parte, a pessoa pode usar outros meios para se comunicar. Esse conjunto de recursos é chamado de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Ele vai de pranchas com figuras e cadernos de comunicação até aplicativos no celular ou no tablet. As diretrizes do Ministério da Saúde citam a comunicação alternativa entre as abordagens para a afasia em que a maior dificuldade está na expressão.

A escolha do recurso depende do perfil de cada pessoa e da fase da reabilitação. O fonoaudiólogo pode ajudar a decidir o que faz sentido em cada momento.
Perguntas frequentes sobre afasia
Afasia tem cura? Depende de cada caso. Algumas pessoas recuperam boa parte da linguagem, principalmente nos primeiros meses. Em muitos casos, alguma dificuldade permanece. Mesmo assim, com terapia, a comunicação pode continuar melhorando por anos.
A pessoa com afasia entende o que eu falo? Muitas vezes entende, mas nem sempre. Em alguns tipos de afasia, a compreensão fica mais preservada. Em outros, é justamente a parte mais afetada. Frases curtas, um assunto por vez e a confirmação do que foi entendido ajudam em qualquer situação.
Afasia é a mesma coisa que disartria? Não. A afasia afeta a linguagem, ou seja, a capacidade de encontrar, organizar e entender palavras. A disartria afeta a articulação e a voz. As duas podem aparecer juntas depois de um AVC, e o fonoaudiólogo é quem diferencia uma da outra.
Para terminar
Receber o diagnóstico de afasia assusta. No entanto, entender o que está acontecendo já ajuda a família a agir com mais calma. A pessoa continua ali, com seus pensamentos e sua história. Com reabilitação, paciência e os recursos certos, a comunicação pode ser reconstruída, ainda que de um jeito diferente.
No dia a dia, alguns recursos de CAA podem ajudar. A CLA é um aplicativo de comunicação alternativa em português, feito para adultos com afasia após AVC que entendem bem, mas têm dificuldade para formar frases. A pessoa toca palavras com imagens, e o aplicativo monta a frase, fala em voz alta e permite enviar pelo WhatsApp. Vale conversar com o fonoaudiólogo para saber se esse tipo de recurso faz sentido no seu caso.
Referências
- American Stroke Association — Aphasia Diagnosis and Treatment Options (2024)
- American Stroke Association — Types of Aphasia (2024)
- Ministério da Saúde — Diretrizes de atenção à reabilitação da pessoa com acidente vascular cerebral (2013)
- National Aphasia Association — What is aphasia? (2025)
- National Aphasia Association — Tips for Communicating with Someone with Aphasia (2026)




